E dizer-se que não tens nervos, ó nervosa ó vibrátil, sutil, minúscula formiga! Dizer que não tens alma! E haverá quem o diga, se o teu exemplo toda gente o imita e glosa?!
Tão pequenina és tu, e, astuta e laboriosa, arrastas uma folha — e a arrastada te abriga... E o requinte que pões em roer o grão de espiga? E a perícia em bordar as pétalas da rosa?
Passas, eu me pergunto onde o melhor motivo: se — Atlas — erguer nas mãos e nos ombros a Esfera, se — formiga — arrastar um ramo nutritivo;
Ou — sonhador que a própria angústia retempera — dia e noite viver, qual dia e noite vivo, ao peso imaterial de uma triste quimera...
Muro cinzento coberto de musgos dia nublado, garoa, frio. Em bando, pássaros brancos cortam o céu.
Por sobre o velho muro em fila, formigas negras carregam folhas. Lentas, precisas, agourentas. Sentinelas do portal talvez...
Lá dentro, implacável silêncio. A vala preparada à espera. Olhos úmidos, abraços mãos apertadas. Velhos amigos que o tempo separou.
Em frente, em fila seguem as formigas. Impossível parar. Metáforas da vida talvez... Uma a uma, lentamente assistem, sobre o muro frágil ao antigo ritual das despedidas.
Lá dentro agora soluços, prantos comedidos preces, indagações, pesares. E o meu amigo dorme indiferente... Ao frio, á garoa, aos pássaros ao pranto, às preces e aos abraços. Indiferente á dor e à vida que já foi tão doída.
Seguem as formigas por sobre o muro... Em breve anoitece. Amanhã não estaremos mais aqui.
Por sobre o velho muro uma a uma seguirão as formigas...
As formigas levavam-na... Chovia... Era o fim... Triste Outono fumarento... Perto, uma fonte, em suave movimento, Cantigas de água trêmula carpia. Quando eu a conheci, ela trazia Na voz um triste e doloroso acento. Era a, cigarra de maior talento, Mais cantadeira desta freguesia. Passa o cortejo entre árvores amigas... Que tristeza nas folhas.., que tristeza Que alegria nos olhos das formigas! Pobre cigarra! quando te levavam, Enquanto te chorava a Natureza, Tuas irmãs e tua mãe cantavam...
Tem coisas que só os grilos sabem cantar Coisas antigas, como velhas canções de ninar Mas, nem todo grilo sabe cantar ou dizer o que sente As formigas sabem cantar, mas, precisam trabalhar Além do mais, ninguém gosta de ouvir formiga cantarolar
Mas, não é bem assim que acontece com os grilos Os grilos não arrastam folhas, eles nasceram popstars